Cultura

O 11 de Setembro

O 11 DE SETEMBRO “

Extraído do livro Marinheiras e Brejeiras I – Mais de uma em cada porto

Capa dos Três Livros

Eu comandava o navio Flamengo, que fazia a Linha da América do Norte – Brasil, com viagens rápidas e completas de vinte e oito dias. Como regra básica da United State Coast Guard, quarenta e oito horas antes da chegada ao primeiro porto, temos que enviar uma mensagem, informando as características do navio, sua carga, procedência, calados, as condições da máquina e de seus equipamentos, seus certificados, enfim, tudo referente ao navio, sua salvatagem e segurança, seguindo fielmente as determinações do CFR (Code Federal Regulation). Nossa chegada estava prevista para o dia doze de setembro de 2001.

Na manhã do dia dez, o marinheiro Ataliba estava junto à borda do navio, portando uma pequena lanterna de segurança, aquelas lanternas de borracha, estanques a qualquer centelha. Na ocasião em que o mesmo fez demasiada força para sacar as baterias da lanterna, puxou o braço em sua direção e, com aquele gesto brusco, conseguiu dar um soco em si mesmo, ocasião em que sua dentadura saiu da boca, rolou pelo convés quase caindo n’água.

Com aquele puxão, a lanterna ficou com os contatos danificados e, depois que a tripulação tomou conhecimento do fato, começou a gozação com o pobre Ataliba. Uns diziam que ele precisou dar um soco em si mesmo para sacar uma bateria da lanterna e que, se fosse para sacar uma rolha, ele mesmo provocaria o próprio nocaute. Outros diziam que se a dentadura caísse n’água, certamente sobraria mais rancho e menos mingau.

Ataliba, furioso, sem noção do que estava falando, disse que se a sua dentadura caísse n’água, seria em águas americanas e o governo dos Estados Unidos certamente mandaria fazer uma nova. Ele lembrou que seu velho tio, também marinheiro, quando se acidentou nos Estados Unidos, obteve toda a proteção do governo e seu primo, que perdeu um par de óculos lá, também foi indenizado pelo Tio Sam.

De toda aquela conversa, o imediato interveio, dizendo que Ataliba estava enganado, pois o navio ainda estava bem longe de águas americanas e caso a dentadura caísse n’água ficaria por isso mesmo. Quanto ao caso dos óculos do seu primo, admitiu que foi uma mera cortesia da agência local , pois o governo americano não teve nada a ver com isso.

Ataliba, inocente de tudo, não gostou da observação do imediato e disse que, pelas leis do Direito Internacional, o governo do país visitado teria por obrigação indenizá-lo pelos prejuízos causados. No seu caso, seria a dentadura.

Bem, a conversa se encerrou desse jeito. Como o navio chegaria à barra de Nova York no dia doze de setembro pela manhã, era o momento de enviar a mensagem de quarenta e oito horas de aviso. (48 hours’ notice)

E assim foi feito. Enviamos o aviso quarenta e oito horas, informando que o navio estava bem, sem problemas, apenas com uma deficiência em uma pequena lanterna de segurança que precisava ser substituída.

No final do dia, a gozação com o Ataliba continuava. Ele discutia no salão, dizendo que os Estados Unidos se preocupam com a vida das pessoas e, baseado nos exemplos de seu tio e de seu primo, insistia na ideia de que o governo do Presidente George Bush, com muita gentileza, indenizaria uma nova dentadura, caso esta caísse no mar.

Amanheceu o dia 11 de setembro de 2001 e ocorreram os atentados terroristas em Nova York. Contudo, naquela ocasião, não sabíamos de nada. Casualmente, não tivemos nenhum contato telefônico, nenhuma informação da empresa, ou de outro navio.

À tarde doa dia 11, enviamos a mensagem de aviso de vinte quatro horas para a USCG (24 hours’ notice) e voltamos a mencionar que o navio estava sem problemas, apenas com uma deficiência em uma pequena lanterna de segurança que precisava ser substituída.

No dia doze de setembro, finalmente, chegamos à barra de Nova York, um dia depois da grande tragédia. Porém, não sabíamos de absolutamente nada.

Eu já estava no passadiço e logo no primeiro contato via VHF senti uma diferença na voz do operador da estação de praticagem. Antes de chegar ao ponto de embarque do prático, o navio foi cercado por dois rebocadores e escoltado por quatro pequenas lanchas ligeiras da USCG.

Os rebocadores nos pediram para deixar dois cabos pendurados na proa e na popa para qualquer eventualidade. Achei muito estranho aquela medida. A barra do porto estava cercada de embarcações oficiais, parecendo ser da Interpol. O prático subiu tenso, acompanhado por um oficial da imigração. Estava tudo muito estranho. O VTS, sistema de tráfego, estabeleceu um regime emergente de mão única no canal de acesso e, a todo o momento, contatando os navios, pedindo posição, dando orientações e informando que por ordem das autoridades precisava fazer o contato em pequenos espaços de tempo, evitando qualquer tipo de cruzamento.

Dois aviões sobrevoaram a entrada da barra e um helicóptero ficou pairando sobre o navio durante o deslocamento de entrada. Diante de toda essa parafernália, perguntei ao prático o que estava acontecendo. Ele, na presença do oficial de imigração, me disse, muito reservadamente, em baixo tom de voz, o que havia ocorrido no dia anterior.

Nesse momento, a USCG nos chama pelo VHF e torna a perguntar se temos alguma anormalidade a bordo. Respondi que enviei as duas mensagens de praxe com quarenta e oito e vinte quatro horas de antecedência e que o navio estava sem problemas, apenas com uma deficiência em uma pequena lanterna de segurança que precisava ser substituída. O operador da Coast Guard, através do VHF, respondeu:

– OK, estamos aguardando a sua atracação.

Quando o navio se aproxima para atracar no cais de Nova York, avistamos um batalhão de oficiais da Coast Guard e até mesmo a presença de militares e marines americanos.

Nesse momento, o Imediato, que até então não sabia de nada, comenta em tom irônico:

– Caramba, estou impressionado. Tudo isso por causa de uma lanterninha?

E o Ataliba, que estava presente no passadiço, não se dando por vencido, ainda disse:

– Tá vendo só como eles se preocupam com as coisas mínimas? Já pensou se fosse a minha dentadura?

Francisco Cesar Monteiro Gondar

  • Capitão de Longo Curso.

  • Comodoro da Marinha Mercante Brasileira, 43 anos de vida marítima, sendo 30 anos na função de comando.

  • Embaixador da IMO – ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL no Brasil.

  • Doutor em Ciências Navais pela Escola de Guerra Naval.

  • Pertence ao Corpo Diplomático Mundial de Segurança e Paz como Embaixador Humanitário da Paz do WPO: Word Parlament Of Security and Peace.

  • Completou 2.534.759 milhas navegadas em 9.382 dias.

Sobre o autor

Redação Rumar

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