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Falta de informação compromete os desígnios da Economia da Pesca

Transformadores mundiais, cientistas queimados em fogueiras, artistas e desajustados sociais costumam tropeçar na história e fazer a melhor parte dela. Ou criar uma confusão danada. Mas em ambos os casos eles tocam no cerne da questão. O livro de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, aboliu o DDT nos EUA e teve como efeito colateral o impulso à preservação dos ambientes naturais. Organizações originalmente pacifistas, tornaram-se ativistas horrorizadas com as experiências nucleares e seus efeitos: morte de seres humanos e soldados depois da primeira experiência no deserto do Novo México. Logo depois a Rússia e a França iniciaram também experimentos, cujo legado resultou na contaminação de nativos em ilhas e atóis, mais mortes de seres humanos pela radioatividade e devastação da biodiversidade. Os efeitos nocivos da radioatividade levaram a indústria pesqueira japonesa a falência e o estrôncio 90 contaminava o leite materno. Alguns membros dessas organizações originaram o Greenpeace, fundado em 1971, que trouxe a agenda ambiental para o planeta. Embora a história da formação destas organizações seja relativamente desconhecida, todas elas provocaram uma mudança admirável nos corações e mentes e foram peças importantes que determinaram mais tarde a concepção de leis sobre conservação ambiental e políticas públicas.

Aula pratica do Projeto Piabanha, talvez a unica instituição nacional cujo trabalho associa a genética à ecologia de peixes.Aula pratica do Projeto Piabanha, talvez a única instituição nacional cujo trabalho  associa a genética à ecologia de peixes.

Podemos agora vislumbrar de que modo a transformação na relação entre os seres humanos e o mundo natural incitou o despertar da consciência pública ambiental. O debate a respeito da responsabilidade dos principais autores da prosperidade nacional e os limites do progresso tecnológico não pode ser mais ornamentado com a presunção da beneficência dos primeiros. A complexa área ambiental, uma especialidade que requer um elevado nível técnico, científico e muitos anos de experiência, ainda costuma provocar grandes polêmicas. Num passado recente, uma discussão sobre a viabilidade da construção das usinas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio frequentou as principais manchetes da mídia impressa e televisiva. Entretanto, a ignorância reverberou na mídia na forma de blague quando faltaram alegações mais sólidas e consistentes que justificassem os empreendimentos de Jirau e Santo Antônio. O presidente da república e eloquentes economistas-jornalistas alegavam que a proteção de um “mero bagre”, um simpático peixe que perambula em praticamente todos os corpos d´água nacionais, estaria impedindo o progresso da nação.

filhotePiraíba,o maior dos grandes bagres brasileiros é cobiçado por pescadores esportivos internacionais.

Pois nos países onde a pesca é bem manejada, o peixe é tido como uma pepita de ouro. Para que a pesca recreativa e extrativa seja economicamente viável no tempo, por exemplo, como em todas associações de troca, é necessário combinar experiência, conhecimento, gestão e poder dos negócios a fim de influenciar políticas públicas relevantes. Todas as informações são continuamente coletadas, analisadas e utilizadas numa boa gestão. A importância das inter-relações entre as espécies animais e vegetais, e como elas beneficiam o meio natural em prol do desenvolvimento humano, são parâmetros cruciais para o entendimento da perpetuação da vida de uma maneira geral – consequentemente, da vida aquática, do desenvolvimento da ecologia, e da economia da pesca. Pesquisadores de altíssimo nível trabalham ao redor do mundo com ferramentas que quantificam o impacto econômico que tem como base a vida selvagem. Todo esse conhecimento acumulado é que nos permite agregar consensos, dirimir conflitos e discernir sobre o que fazer, sobretudo quando expostos a situações duvidosas e embaraçosas.

Retomamos aqui o conflito entre o bagre de Jirau e Santo Antônio e o desenvolvimento promovido por uma hidrelétrica. Ao contrário do que muitos imaginam, não é o baseball, o futebol, o golfe ou o basquete, o esporte mais praticado nos EUA. A natação nos ambientes aquáticos de rios, córregos, lagoas, lagos e mares aparece em primeiríssimo lugar, seguida pela pesca recreativa e a esportiva, cujo conceito é o pesque e solte. A Associação Americana de Pesca Esportiva e a Southwick Associados liberou em 2017 a atualização do Contribuições Econômicas da Pesca Recreativa: Distritos Congressionais dos Estados Unidos. O relatório afirma que 46 milhões de pescadores (todos devidamente cadastrados) tem um impacto econômico de U$ 115 bilhões de dólares no país. E´ mais dinheiro que aquele arrecadado pelas grandes corporações como a Microsoft, a Nike, a Apple, apenas para citar algumas. E o bagre do presidente e dos economistas de plantão é corresponsável pelos resultados financeiros astronômicos – nos referimos aqui ao segundo peixe mais procurado pelos pescadores recreativos.

robalo+peva

Os pescadores recreativos do país geram mais de US $ 48 bilhões nas vendas no varejo e o impacto econômico de US $ 115 bilhões criou mais de 800 mil empregos na fabricação, venda ou provisão de equipamentos de pesca, juntamente com a indústria hoteleira e construtores de barcos. O relatório, que descreve as contribuições econômicas para a economia de cada estado, e dos pescadores que vivem dentro de cada distrito, também inclui a infografia de uma página, demonstrando os impactos econômicos de todos os 435 distritos do Congresso e dos 50 estados. A informação utiliza dados da Pesquisa Nacional de Pesca, Caça e Recreação Associada de Vida Selvagem, dos Serviços de Peixe e Vida Selvagem, e do Escritório do Censo dos EUA. O estudo utilizou o software de mapeamento e de população para se concentrar em pequenas áreas geográficas e fornecer informações aos membros da Câmara dos Representantes.

A informação sobre as atividades recreativas de pesca e vida selvagem nos EUA é uma ferramenta que a American Sportfish Association utiliza para ajudar os representantes dos fabricantes das organizações privadas entenderem como funciona o processo de funcionamento do esporte. O National Survey of Fishing, Hunting and Wildlife-Associated Recreation é um esforço entre parcerias com os Estados e organizações de conservação e tem se tornado uma das mais importantes fontes para quantificar o impacto econômico da conservação da vida selvagem. As organizações federais, estaduais e privadas utilizam informações detalhadas para manejar a vida selvagem, os produtos desenvolvidos pelo mercado e a procura das tendências. O estudo é conduzido a pedido das agências estaduais de pesca e vida selvagem. O U.S Fish and Wildlife Service coordena o Survey e o U.S Census Bureau coleta os dados através de entrevistas assistidas no computador. Tudo financiado por subsídios do programa Multistate Conservation Grant, autorizado pela Wildlife and Sport Fish Restoration Programs Improvement Act de 2000. O Sport Fish Restoration Act, baseado em Ato anterior denominado Wildlife Restoration Act, foi fundado por dois membros do legislativo americano em 1950, para atender as expectativas de seus representados quando perceberam com angústia e aflição que a poluição e degradação dos corpos d´água estava colocando em ameaça a vida, a qualidade da vida, e a beleza cênica.

piabanhoPesca esportiva. O peixe foi imediatamente liberado e deve procriar.

No mar, o NOAA Fisheries é o órgão encarregado de garantir a saúde a longo prazo das pescarias oceânicas e outras formas de vida marinha nas águas federais. Um dos seus atributos mais importantes consiste em trabalhar com pescadores comerciais e recreativos para contarem que espécies estão sendo capturadas, quando, onde e como. Esta informação é usada para decidir quantos peixes podem ser içados de forma recreativa e comercial sem afetar negativamente a sustentabilidade das pescarias. Também garante que sejam tomadas medidas adequadas para recuperar as pescarias, sem problemas. Dirigido por dados fornecidos por pescadores e capitães, o MRIP, um programa do NOAA Fisheries, produz melhores informações através de uma melhor ciência e, igualmente importante, maior transparência, responsabilidade e engajamento para sustentar e aprimorar os programas científicos e permitir uma boa conservação e gestão dos recursos marinhos vivos da Nação e seus ecossistemas. A empresa de avaliação de estoque da NOAA Fisheries é composta por seis centros de ciência regionais, e tem o Escritório de Ciência e Tecnologia como seu órgão nacional de coordenação. Com o Plano de Melhoramento da Avaliação de Estoque como guia, a NOAA Fisheries utiliza sua rede nacional de coleta de dados e programas de avaliação de estoque em colaboração com seus parceiros em cada área de gerenciamento para realizar avaliações adequadas à cada estoque de peixes. Os cientistas da NOAA Fisheries trabalham com outros cientistas, pescadores, gestores de recursos e outros, de todo o país e do mundo, para garantir que as avaliações de estoque representem a melhor informação científica disponível. O Programa Econômico do NOAA é utilizado para avaliar os benefícios e os custos das ações de gerenciamento alternativas, priorizar as necessidades de gerenciamento e facilitar o desenho de políticas que maximizem de forma sustentável os benefícios sociais dos recursos oceânicos e costeiros. Funções importantes do Programa de Economia incluem:

redes+do+paraibaRedes de pescadores artesanais. Impacto baixo na fauna aquática.

GRANDES REDES PESCA COMERCIALRedes de pesca comercial em grandes embarcações chegam a mais de 30 km de extensão.

Monitorar o status e as tendências no desempenho dos setores de pesca comercial e recreativa, incluindo a avaliação dos impactos econômicos regionais (vendas, valor agregado e impactos no trabalho);

Analisar questões críticas de gestão da pesca, tais como, avaliar o desempenho econômico dos programas de captura; as opções de manejo espacial marinho e as estratégias de redução das capturas acessórias protegidas;

Realização de pesquisas sobre a valorização de espécies protegidas marinhas;

Mantenha o America Fishing liderando a luta para preservar o direito de pescar de forma sustentável nas vias navegáveis da nação”; é o mote nos EUA. Os americanos investem no peixe e não brincam com uma receita de U$ 115 bilhões. Na Europa, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Chile a pesca recreativa e a esportiva é levada a sério, no mar e nas águas interiores. Não é possível que um país com as nossas dimensões, beleza cênica, biodiversidade aquática e abundância, siga o caminho inverso e perpetue a mais absoluta falta de informação.

grandes redes.Apesar da elevada produtividade, esse tipo de pesca produz reflexos negativos no ambiente marinho, isso porque não há uma seletividade dos pescados, desse modo, são retirados peixes de tamanhos pequenos, além de crustáceos.

Luiz Felipe Daudt de Oliveira

MSC. Engenharia Urbana e Ambiental PUC/Braunchsweig

Geógrafo – Analista Ambiental

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