Mentalidade marítima

Escoteiros do Mar – Primeiro difusor da Vela no Brasil

Por André Torricelli – O Escotismo do Mar foi criado na Inglaterra em 1909, apenas dois anos após a criação do escotismo “de terra”, para atender aos jovens que preferiam ter experiências marinheiras e para atender também à necessidade de incentivar futuros profissionais visando a expansão do mercado marítimo. O marco inicial desta criação é um acampamento de 15 dias com 100 adolescentes reunidos às margens do Rio Beaulieu e, ao mesmo tempo, a bordo do navio de treinamento “Mercúrio”. Naquela ocasião, eles realizavam atividades como regatas, pesca, estudos náuticos, torneios de nós e vivenciavam a experiência a bordo.

Em nosso país a introdução do movimento escoteiro se deu em 1910, pela Marinha do Brasil. No mesmo período em que foi construída a nova frota naval. Os brasileiros acompanharam a execução do serviço em Newcastle (1907 a 1910). O surgimento e o crescimento do escotismo nos seus primeiros anos foi rápido e observado pelo pessoal da nossa Marinha. Chegando ao Brasil, em 1910, os novos navios vieram tripulados pelos marinheiros e trouxeram seus filhos, que foram escoteiros na Inglaterra, além de manuais de atividades e uniformes ingleses. Eles fundaram o Centro de Boys Scouts do Brazil, fomentaram e apoiaram diversas iniciativas similares por todo o País. De 1919 a 1921, com a Missão do Cruzador José Bonifácio, que durou até 1923, a Marinha organizou as Colônias de Pescadores e nelas Grupos de Escoteiros do Mar, para apoiar a educação dos filhos dos pescadores. Agregando outras iniciativas da própria Marinha, organizou o Escotismo do Mar, criando a Confederação Brasileira dos Escoteiros do Mar, em 7 de setembro de 1921, com uma solenidade na enseada de Jurujuba, presidida pelo Ministro da Marinha, o Dr Veiga Miranda, que criou adiante o primeiro Regulamento dos Escoteiros do Mar através do Aviso nº 3.811 de 28-03-23.

  

Capa e desenho dos distintivos e uniformes dos Escoteiros do Mar – Regulamento Geral a Confederação Brasileira dos Escoteiros do Mar, ano 1923.

No período em que não existiam clubes e escolinhas dedicadas ao esporte da vela, em especial nas décadas de 1910 até 1960, as atividades dos Escoteiros do Mar tiveram seu período de auge, sendo instrutivas através do método escoteiro do mar, que compunha a plena vivência através dos jogos,  cruzeiros de pesquisas, torneios, regatas em guarnição, solenidades cívicas, acampamentos em ilhas, os grande-jogos navais etc. Tudo especialmente envolto pelo seríssimo código de ética dos escoteiros. Consolidaram, portanto, todo o tipo de aprendizado na área náutica, com destaque à difusão da prática dos esportes da vela e as ciências do mar, entre crianças e adolescentes que viveram tais décadas, formaram-se um imenso número de praticantes populares do esporte da vela no Brasil, do Pará ao Rio Grande do Sul. E quando eles se tornaram adultos, e até mesmo ainda jovens, passaram a compor guarnições dos Iates Clubes a convite dos donos das embarcações. Fenômeno semelhante acontece até hoje na Inglaterra.

Os Grupos de Escoteiros do Mar das primeiras décadas do século XX, em sua maioria, foram criados ao lado das Colônias de Pescadores e atendiam especialmente às classes mais desfavorecidas que eram os filhos dos pescadores e, também, de outras crianças e adolescentes vizinhos às suas sedes. A partir da década de 20, verificou-se a tendência da criação de Grupos Escoteiros em Clubes, com a concepção do escotismo vinculado aos esportes. Nos noticiários da época há inúmeras referências a times esportivos compostos por escoteiros como, por exemplo, o Fluminense, o Tijuca, o América etc. A bilheteria de competições, muitas vezes, eram revertidas para apoiar o escotismo e chegou a produzir legislações públicas de apoio institucional. Com o surgimento dos Clubes de Vela, aconteceu algo similar em relação aos Grupos de Escoteiros do Mar. O primeiro clube de esportes náuticos com Escoteiros do Mar foi o Botafogo, seguido pelo Flamengo, o São Cristóvão, o Yatch Clube Brasileiro, Clube de Regatas Gragoatá, Clube de Regatas Icaraí,  Iate Clube de Ramos, Jurujuba Iate Clube, Jequiá Clube e muitos outros. Também foram criadas as Bases Navais de Escoteiros do Mar na Praça XV, em Olaria (Porto de Maria Angu), na Ilha do Governador, na Ilha de Boa Viagem, e em outros Estados, que permitiram grande numero de Grupos de Escoteiros do Mar afastados da costa, terem nelas suas embarcações para se fazer ao mar.

 

1941 – Inauguração da sede da Federação dos Escoteiros do Mar na Praça XV, com a presença do Presidente da República, entre outras autoridades.

Os números eram grandiosos. Só no ano de 1922, pode-se verificar nos registros, por exemplo, no município de Maricá (RJ), 180 jovens, e em Rio Grande (RS), 500 adolescentes. Além da Baia da Guanabara, que era rodeada de Grupos de Escoteiros do Mar ressalta-se naquele ano outros municípios como Saquarema, São João da Barra, Angra dos Reis (RJ), Santos, Ubatuba (SP), São Francisco do Sul (SC), Belém, Soure (PA) e Aracaju (SE). No que se refere às embarcações, na Baia da Guanabara, em 1936 estavam registrados 36 navios dos Escoteiros do Mar que em 1942 chegaram a 85 registros de embarcações em atividades. O município de Niterói chegou a ser a cidade que possuía mais Grupos de Escoteiros do Mar próximos uns dos outros, com imensa quantidade de membros. Nos primeiros anos da Federação, o sargento Gelmirez de Mello era o responsável pela divisão de ensino marítimo como noticiou Benjamin Sodré no jornal ‘O Tico-Tico’. A Diretoria de Portos e Costas, mais a frente, criou um núcleo de ensino e expansão, para qualificar os adultos voluntários e abrir novos grupos, cedendo dois veleiros escolas, dirigidos pelos tenentes Benjamin Sodré, Gabriel Skinner, Gumercindo Loretti.

 ‘O Espadarte’ foi um dos dois veleiros escolas cedidos pela DPC para o treinamento da Escola Nacional de Chefes Escoteiros do Mar. Foto do ano de 1936.

Com o fim da autonomia administrativa das Federações “temáticas” no escotismo brasileiro, por força de Leis Federais em 1928 e 1946, a partir de 1950 a Federação Brasileira dos Escoteiros do Mar é absorvida na figura jurídica da União dos Escoteiros do Brasil, deixando progressivamente de ter as necessidades marítimas atendidas como foco associativo. Passou a departamento até a década de 70 e posteriormente, a partir dos anos 80, vem sendo gerenciada como coordenação, dentro da área de programa educativo, subordinada a organização administrativa geral.

A Marinha do Brasil seguiu empreitando seus esforços nos anos 70 e 80 com o lançamento de literaturas e eventos específicos para o fomento dos Grupos de Escoteiros do Mar, como o livreto “Como organizar um Grupo de Escoteiros do Mar – 1971”. Colaborou também com a modernização das embarcações que eram em madeira e passaram a cascos feitos em fibra. Porém, por outro lado, somou-se o peso das dificuldades administrativas no âmbito do movimento escoteiro, ao aumento das escolinhas de vela dissociadas do escotismo do mar nos clubes náuticos, ao fim dos investimentos na manutenção das Bases Navais de Escoteiros do Mar e ao clubes em limitar a participação dos não associados. Embora poucos grupos ainda estivessem atrelados às Colônias de Pescadores nos anos 80, o fenômeno de crescimento das favelas nas áreas costeiras, ao contrário, aumentou ainda mais a característica de atendimento às camadas mais populares. Outros fatores a se considerar é a ocupação imobiliária da costa, que dificultou severamente empreitadas para o estabelecimento de Grupos de Escoteiros do Mar em sedes próprias e as sucessivas crises econômicas do país que influíram na disponibilidade financeira da população mais simples ao gerenciar o custeio das novas embarcações de fibra em substituição à madeira das antigas embarcações, mais baratas, com a economia de rateio comumente praticada pelos escoteiros.

 

Cerimônia de entrega do escaler NT “BP”, um dos primeiros escaler de fibra entregue aos Escoteiros do Mar – 1987.

Após um período associativo bastante conflituoso nos anos 80, que pretendeu modificar as características do escotismo do mar, a consequente diminuição dos Grupos e do efetivo dos Escoteiros do Mar nos anos 90, começaram a surgir muitas ONGs e projetos com finalidades similares de popularizar a navegação a vela. A partir de 2002 a NORMAN-03 passa a classificar o Escotismo do Mar como entidade equiparada às escolas náuticas e a divulgação das atividades dos Grupos chega às mídias digitais, que começam a mostrar abertamente as práticas, fomentando um ressurgimento de amplo interesse. Em 2016 a NORMAN-03 criou um item específico para classificar os Grupos e Núcleos de Escoteiros do Mar que passam a poder cadastrar-se junto à autoridade marítima, para avalizar as horas práticas das habilitações de Veleiro e Arrais amador. Em 2020 entra em vigor um Acordo de Cooperação entre a Marinha do Brasil, o Centro Cultural do Movimento Escoteiro e a União dos Escoteiros do Brasil, com vistas a expandir a mentalidade marítima e aumentar o número de Grupos de Escoteiros do Mar, além de criar o Reconhecimento de Qualidade dos Grupos de Escoteiros do Mar (REQGEM) no âmbito da Marinha do Brasil, semelhante ao praticado na Inglaterra desde 1919, com vistas a incentivar as boas práticas nos Grupos de Escoteiros do Mar.

  ANDRE TORRICELLI é escoteiro desde os 14 anos de idade, tendo ocupado funções como a Coordenação Regional e Nacional dos Escoteiros do Mar, Conselheiro Nacional da União dos Escoteiros do Brasil e outras. Há quase duas décadas pesquisa a história do escotismo, em especial do escotismo do mar. Atualmente coordena o Grêmio de Vela dos Escoteiros do Mar no CCME.

Sobre o autor

Fabrizio

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