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Meteorologia e Oceanografia

A Tromba d’Água

Na manhã do último dia 27 de fevereiro, os trabalhadores do Porto da Ceasa, em Manaus, Amazonas, testemunharam um belo, intrigante e assustador fenômeno. Da base de uma nuvem até a superfície do Rio Negro, estendia-se um grande funil de ar em rotação, visível pela condensação de vapor d’água em seu interior e pelas gotas de água levantadas por ele. Tratava-se de uma tromba d’água (no inglês,waterspout”) que, numa definição trivial, é simplesmente um tornado que atua sobre um espelho d’água.

Foto: Rafael Rodrigues
Foto: Rafael Rodrigues

Fonte da imagem: (http://www.blogdomarioadolfo.com.br/wp-content/uploads/2018/02/WhatsApp-Image-2018-02-27-at-18.08.16.jpg – Acessado em 05/04/2018)

O processo de formação de um tornado é bastante complexo e envolve diversos fatores. No entanto, o mecanismo básico que favorece seu surgimento pode ser facilmente entendido se levarmos em conta uma certa hipótese. Suponhamos que exista um gigantesco tubo, com centenas de metros de diâmetro e de comprimento, deitado no solo. Se a intensidade dos ventos for maior em altitude do que na superfície, será intuitivo imaginá-lo rolando para frente, como se agisse sobre ele um torque, gerado pelo vento mais forte na borda mais alta e mais fraco junto à superfície. Essa analogia nos ajuda a entender que, quando o vento fica mais forte com a altitude, é como se existisse uma tendência de giro em torno de um eixo horizontal. Tal situação (o aumento da velocidade do vento com a altitude) é denominada “cisalhamento” vertical, e constitui um dos ingredientes fundamentais para a formação dos tornados.

Durante o estágio de desenvolvimento de uma tempestade, as correntes de ar em ascensão que alimentam a nuvem tendem a inclinar esse “tubo”. Em outras palavras, passa a existir uma tendência de giro ao redor de um eixo vertical de rotação. A queda da pressão atmosférica no interior desse vórtice (devido ao ar mais quente oriundo dos níveis mais baixos) contribuirá para aumentar a intensidade do vento, até que gotas de água do mar (ou poeira e destroços em terra) comecem a ser levantados. Por fim, a base da nuvem tende a exibir uma protuberância em forma de funil, que pode, ou não, tocar o solo. Forma-se, assim, o tornado.

esquema_tornado

Fonte da imagem: http://eschooltoday.com/natural-disasters/tornadoes/how-do-tornadoes-form.html (Acessado em 04/04/2018)

O episódio observado em Manaus provavelmente foi originado de uma nuvem de tempestade comum, uma cumulonimbus. Tornados desse tipo, relativamente fracos, são chamados convencionalmente de “trombas”, sendo “trombas terrestres” quando atuam sobre a terra firme e trombas d’água quando atuam sobre corpos d’água, obviamente. Eventos assim costumam durar desde poucos segundos até alguns minutos, com ventos normalmente não ultrapassando os 100 km/h.

A essa altura, vale atentar para a frequente confusão entre os termos “tromba” e “cabeça d’água”, que tratam de fenômenos essencialmente diferentes. A cabeça d’água é uma volumosa e repentina enxurrada causada pela ocorrência de chuvas torrenciais na cabeceira de rios. Em poucos segundos, o nível das águas e a correnteza aumentam consideravelmente, com potencial para provocar enorme destruição. Grosso modo, portanto, a cabeça d’água pode ser definida como uma poderosa enchente, enquanto a tromba d’água está associada a vento forte (em rotação) sobre a água.

Por outro lado, se determinadas condições estiverem presentes na atmosfera (por exemplo, muita umidade no ar próximo ao solo e uma camada de ar seco e frio poucos quilômetros acima, e vento se intensificando muito e mudando de direção com a altura), poderá se desenvolver uma enorme nuvem de tempestade, denominada “supercélula”. Esse tipo de fenômeno, menos comum (porém, não raro) no Brasil, está frequentemente associado a tornados violentíssimos.

Sobre o autor

Centro de Hidrografia da Marinha

O Serviço Meteorológico Marinho brasileiro (SMM), executado pelo Centro de Hidrografia da Marinha, provê apoio ao navegante por meio da emissão de avisos de mau tempo, elaboração de cartas sinóticas e de boletins de previsão meteorológica para toda a METAREA V (área de responsabilidade marítima brasileira).

As atividades desenvolvidas pelo Serviço Meteorológico Marinho brasileiro são executadas em cumprimento a Convenção Internacional para Salvaguarda da Vida Humana no Mar (SOLAS 1974-1988, Ratificada pelo Brasil por meio do Decreto 92.610).

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