paceria
Vela

Tempo e lugar de ventos malvados. FURACÕES

Atlântico Norte – Estados Unidos da América, Flórida, 2017 julho 19

Em uma desconfortável ventosa manhã, escrevi para amigos:

( ILUSTRAÇÃO) Furacão Irene atingindo a costa dos EUA às 20hs (26/08/2011) - Foto: NASA's Hurricane Web Page
( ILUSTRAÇÃO) Furacão Irene atingindo a costa dos EUA às 20hs (26/08/2011) – Foto: NASA’s Hurricane Web Page

Key West, 2017 jun 20

“Vento de mais de 20 nós é o que temos para o café da manhã. Efeito de dois furacões na área. Um já furacão mesmo, lá pelo sul do Caribe. Outro, tempestade tropical preocupante. A oeste, no golfo do México, se deslocando para o Texas.
Estou monitorando de perto. Talvez tenha de levar o Petit Prince para um “hurricane hole” e prepará-lo para tempos piores. Sopra apreensão no ar….”

 

COMO CONSEGUES VIVER EM UM BARCO DENTRO DO CORREDOR ONDE ESTES AVASSALADORES DERRUBA QUARTEIRÕES PASSAM?? COMO PLANEJAR UMA CIRCUM-NAVEGAÇÃO PELOS MARES DO PLANETA REPLETO DE DEVASTADORES CICLONES??

É o assunto deste texto:

Casal do barulho. O encrenqueiro Bret pegou em cheio Trinidad Tobago, país que em 2016 ficamos “presos”. Aguardávamos a temporada das nada bem vindas robustas brisas terminar. Onde estamos, Atlântico Norte (AN), vai de junho a novembro. A perturbada da Cindy acabou entrando no continente, pela Louisiana. Fez uma trajetória diferente, para os parcos conhecimentos deste que vos tecla, veio da península Yucatan, México, deslocou se vagarosamente para o norte. Passando a oeste de Key West.

Para poder sobreviver aqui em Key West, faço o seguinte:

  • Primeiro a disciplina. Acordar, escovar os dentes, e saber, pelas páginas na internet, se existe ameaças se formando na nossa região;
  • Segundo, sem ameaça, verificar no dia seguinte;
  • Com ameaça, começar uma rotina de verificação mais freqüente das previsões. Vejo uma ameaça na tela do computador e já começo a checar de 6 em 6 horas. Analiso a distância e estimativa de trajetória.
Fonte: Costa, J. R. V. Galáxias e furacões. Astronomia no Zênite, abr 2015. Disponível em: http://www.zenite.nu/galaxias-e-furacoes/
Furacões, ciclones e tufões são denominações dadas aos ventos ciclônicos, conforme a região do planeta em que ocorrem.

Estes sistemas ciclônicos tropicais, para a região caribenha, se originam no meio do AN. E vem se deslocando, para o oeste, como qualquer ciclone tropical do mundo inteiro, trazidos pelos ventos Alísios e se deslocando para longe da região equatorial após crescerem, portanto para noroeste em nosso caso.

Com ameaças reais, mais próximas, menos de 1.000 milhas, terei que abastecer o barco de diesel e água e comida a “full”. Aqui nos “keys”, ilhotas rasas e planas, da Flórida, com o perigo latente, as cidades são evacuadas. Portanto, todos os serviços básicos interrompidos.

O cenário que nos passaram é de que cocos voam na horizontal, nível da água sobe e cobre tudo, incluindo a estrada que liga todas estas ilhotas até Miami, a US1. Bom, com o Petit Prince totalmente abastecido, levá-lo para o esconderijo de furacão nos mangues. Este está a menos de cinco milhas de já estarmos fundeados. Fazer as amarrações nas raízes, colocar quatro âncoras, dois pares pela proa e popa.

Fazer os preparativos para um tipo de tempestade que ainda não enfrentei. Esta preparação consiste em tirar tudo no barco que possa fazer resistência ao vento. Desenrolar e baixar a vela de proa do enrolador e guardá-la dentro do Petit Prince. Retirar a vela grande, incluindo sua capa da retranca. Desmontar e recolher toda a capotaria. No nosso caso temos um “dog house” e bimini. Desinstalar os painéis solares.

Como enfoco, ainda não temos, e de certo que assim desejamos permanecer, experiência em enfrentar furacões. O que está escrito acima, é o que farei se a ameaça estiver mais próxima. Tudo ainda no plano teórico.

O amigão Luis Pinho, nascido em Moçambique, nacionalidade portuguesa, australiano por opção, saiu do Rio de Janeiro em 1996 no seu veleiro Greenomad. Desde então, segue sua vida a bordo. Trocou de barcos algumas vezes. Conservacionista, capitão de navios do Sea Shepherd, com duas campanhas na Antártica, desenhista naval. Luis enfrentou sim vários ciclones tropicais nestes seus 21 anos de vida a bordo pelo mundo. Uma destas tempestades, na Nova Caledônia, oceano Pacífico Sul, fez um belo relato detalhado de como se preparou para aquela ameaça. E o excelente texto de seu blog.

Luis, além de super amigo, é nosso consultor para tempestuosos assuntos ciclonísticos, dizem… Apesar de nestes dois anos e meio desde que saímos de Angra dos Reis não termos no deparado com nenhum ciclone sobre o Petit Prince, estamos plenamente ciente que em toda nossa rota, para leste, concentrada no hemisfério norte, passaremos por diversas regiões que são atingidas por estas catástrofes naturais. Ressalto que pretendemos não entrar nas áreas afetadas dentro das estações dos ciclones tropicais.

Na rota, serão as seguintes, por região, temporada dos ciclones o nosso planejamento para cruzar a área:

  •  Atlântico Norte, de junho a novembro. Ficamos neste final de verão até o inverno entre a Flórida, Cuba, México e Bahamas. Começar a subir a costa leste norte americana na primavera boreal de 2018. Estar na Terra Nova, Canadá, aguardando a janela de tempo para cruzar para o norte norueguês em junho de 2018;
  • Mar da Arábia, de maio a junho e de outubro a novembro. Pretendemos cruzar em dezembro de 2019;
  • Golfo de Bengala, de abril a dezembro. Ficará a norte da nossa rota, porém, nossa expectativa é de cruzá-lo no final de dezembro de 2019, começo de 2020;
  • Pacífico Noroeste, ano todo, mais intenso de maio a dezembro. Nossa pretensão é estar no norte do Japão em junho de 2021. Em Hokkaido ficarmos aguardando as janelas de tempo para podermos cruzar o Pacífico Norte através das Curilas e a península de Kamchatka, Rússia, e as americanas Aleutas. Chegar a Colúmbia Britânica, Canadá, no final de agosto;
  • Pacífico Nordeste, de maio a novembro. Estarmos em abril de 2022 no Panamá. Para podermos já estar em outubro chegando à ilha de Chiloé, Chile. Irmos negociando com a meteorologia nossa passagem pelo Estreito de Magalhães, no verão meridional de 2022 para 23.
2017 jan - São Vicente e Granadinas, Caribe
2017 jan – São Vicente e Granadinas, Caribe

 

Nossa viagem está em seu primeiro quarto, foram somente 9.730 milha até agora.  A rota prevê mais 32 mil milhas, por estes não tão calminhos mares descritos acima.

Agradecimentos aos amigos João Hackerott e Luis Pinho.

ACOMPANHE-NOS POR ESTA PÁGINA, PERFIL FACEBOOK E CANAL YOUTUBE

“PAULO VINICIUS ARRUDA PASSOS”

Vum bora pru mar (o:

 

 

 

Sobre o autor

Paulo Vinicius

53 anos, carioca. Economista pela Universidade Federal Fluminense, MBA em finanças corporativas pelo Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais - 20 anos trabalhando na aera em empresas como Manufacturers Hanover, Sudameris, Asea Brown Boveri, Embraer. Velejador desde dos 11 anos de idade.

Adicionar Comentário

Clique aqui para postar seu comentário