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Cultura

Roupa suja se lava a bordo

Capa dos Três Livros

Antes dos anos 1960, os navios não eram providos de um sistema de tratamento de águas servidas e efluentes sanitários; ou seja, não havia um sistema de tratamento da água utilizada nas copas, cozinha, banheiros, enfermarias e sanitários. O atual tanque séptico, equipado com um complexo sistema de tratamento, através da aplicação do cloro e da biodegradação, não existia naquela época. Com isso, toda água servida era contida em um tanque especial e quando o navio se afastava da costa, a mais de 25 milhas, fluía tudo para o mar, sem qualquer tipo de tratamento.

Justamente nessa época, um navio do Lloyd Brasileiro, bem convencional e sem nenhum tipo de tratamento de água, subia ao dique em Rotterdã para uma rotineira docagem. Quando o navio está docado, isto é, no seco, com as válvulas dos tanques abertas, os tripulantes e passageiros devem utilizar os banheiros do dique; quer seja para tomar banho, lavar o rosto, escovar os dentes ou utilizar os sanitários, evitando, assim, que qualquer tipo de água caía no piso do dique, incomodando os operários que ali trabalham.

Aquele navio tinha uma tripulação bem interessante, pois ninguém falava uma palavra de inglês. O Comandante estava apreensivo, uma vez que precisava lavar algumas mudas de roupa a bordo, ou seja, roupa de cama, mesa e banho.

O navio não possuía mais peças disponíveis para a próxima troca de roupas. Devido à carência na língua inglesa, o Capitão não sabia como se comunicar com o superintendente do dique, para perguntar se seria possível lavar as roupas a bordo, posto que a água proveniente da roupa lavada poderia ser direcionada e contida em um tanque especial, sem nenhum pingo de água no dique e, portanto, sem nenhum efeito agressivo aos operários.

Diante daquela situação, o Comandante convocou uma reunião com a tripulação para, juntos, decidirem o que fazer. Nesse momento, surgiu um taifeiro, cujo apelido era Cotonete, que se apresentou como uma pessoa esperta, intelectualizada, muito safa, como se diz na Marinha. Ele admitiu que falava um pouco de inglês. E já que havia estudado o dicionário, prontificou-se a fazer o pedido ao superintendente do dique, a fim de resolver aquela situação de uma vez por todas.

Sem muita esperança de conseguir, mas aceitando a “tacada” do taifeiro, o Comandante concordou:

– Ok, Cotonete, nosso objetivo é pedir permissão para lavar a roupa a bordo. Se você se sente seguro, procure o superintendente e explique a situação para ele.

Em seguida, Cotonete desceu as escadas até o dique. Encontrou o superintendente, foi logo chamando o homem de mister e perguntou em alto e bom som:

– Mister! Is possiveixom laveixom a roupeixom in bordeixom?

O superintendente ficou espantado com a indagação de Cotonete, fez aquele gesto de negativo com as mãos espalmadas para baixo e respondeu pausado:

– No understand!

Cotonete virou-se e, sem agradecer, subiu ao Capitão e falou:

– Comandante, ele foi curto e grosso e disse que lavar pode, mas não pode estender.

Francisco Cesar Monteiro Gondar

  • Capitão de Longo Curso

  • Comodoro da Marinha Mercante Brasileira, 43 anos de vida marítima, sendo 30 anos na função de comando.

  • Embaixador da IMO – ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL no Brasil.

  • Doutor em Ciências Navais pela Escola de Guerra Naval.

  • Pertence ao Corpo Diplomático Mundial de Segurança e Paz como Embaixador Humanitário da Paz do WPO: Word Parlament Of Security and Peace.

Sobre o autor

Redação Rumar

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